quarta-feira, 27 de abril de 2016

Festa e sacrifício

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Há uma fatia do evangelho de Lucas marcada pelos tons coloridos de festa e pelos sons vibrantes de júbilo e alegria. Trata-se de Lucas 14 e 15 (a seção intermediária de Lucas 14, versículos 7-24 e Lucas 15 praticamente inteiro). 

Festa e comida são termos praticamente intercambiáveis em quase todas as culturas e não é diferente nesse espaço do evangelho. A história do pastor, da mulher e do pai falam de perdas e achados. Em todas elas, a tônica semelhante é a derradeira alegria e o clima de festa. Mas há mais um elemento semelhante nessas histórias que o barulho da festa ou o calor do júbilo podem nos fazer esquecer. A ideia do sacrifício. 

O pastor arrisca a vida e com a pesada ovelha sobre os ombros retorna ao aprisco. A mulher empreende uma grande limpeza e, exausta, encontra a moeda. O pai abre mão de tudo e se torna vulnerável esperando à janela o retorno do filho rebelde. Antes da festa, um sacrifício. A festa é de graça para quem recebe, mas alguém pagou um preço por ela. Essas histórias falam da graça garantida por um alto sacrifício. 

Voltando a Lucas 14:15, mais um quadro de festa. Um banquete sendo preparado, convites distribuídos. Todos confirmam a presença. Mas, ao iniciar, todos se escusam. A festa é um presente do dono aos convidados, mas exige-se deles um preço para essa relação: recusa de outros compromissos. Preço que eles não querem pagar. Se nos quadros de Lucas 15 o tema da graça incondicional e preciosa é a nota predominante, a história do banquete de Lucas 14 trata do discipulado radical que só o sacrifício total pode manifestar. Aquele que oferece o faz com sacrifício. E daquele que recebe se espera uma inteira e, na maioria das vezes, custosa resposta. 

No miolo dessas histórias, há um chamado de Cristo. “Qualquer um que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo”, Lucas 14:27. É um chamado para morte, afinal a cruz era um instrumento usado para isso. E não há critério menos exigente do discípulo do que “aborrecer a própria vida” (vs 26). Deixar o eu de lado para experimentar as palavras de Paulo “estou crucificado juntamente com Cristo e não mais eu vivo, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). A estrada do cristianismo começa com o Cristo crucificado para nos garantir a graça incondicional e termina com seus seguidores crucificados para manifestar ao mundo o discipulado total. Não há atalhos. 

Charlys Siqueira é colunista do site e programa Hiperlinkados, da TV Novo Tempo

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