sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Afinal, para quem estamos fazendo isso?

Reprodução
Fui pego de surpresa uma vez quando submeti uma dramatização minha à análise superior para aprovação. Me foi pedido que retirasse um trecho da peça em que um personagem morria. É que uma pessoa importante estaria assistindo à peça e isso poderia lhe remeter a memórias ruins do passado.

Fiquei pensando: “Nossa, quase 500 pessoas assistirão a esta peça, há toda uma mensagem que precisa ser transmitida, mas nós estamos mudando tudo para agradar aos caprichos de uma pessoa com temperamento mais sensível”.

Por mais inconveniente que pareça a situação, ela é comum em nossa cultura. “Vou proibir as músicas de determinado cantor porque a guitarra que ele usa me incomoda. Não permito que ninguém assuma o púlpito sem gravata porque meu pais sempre me educaram a ir à igreja de gravata. Meu coração não se alegra quando mudamos a doxologia do culto porque eu tive uma experiência pessoal em que isso não deu certo”. Existem pessoas que basicamente leem a igreja pelas lentes dos seus próprios gostos e experiências e impõem sacrifícios a toda uma membresia – ou a uma parcela dela – simplesmente porque não desenvolveram a tolerância ao diferente nem a capacidade de discernir hábito cultural de princípio.
É claro que é um ato de amor quando todos suportam o irmão mais intransigente, mas às vezes a gente esquece que Romanos 14 é uma via de mão dupla, o que significa que também é um ato de amor que o irmão intransigente seja incentivado a transigir.

Quando sacrificamos a experiência espiritual de várias pessoas para satisfazer os ditames particulares de alguns, talvez estejamos realizando a triste sentença que Rafaela Pinho denuncia em sua Tradições: “A emenda humana torna mais profana a conduta santa e as leis divinas mais humanas”.

Ângelo Bernardes é professor e, na igreja de Boa Viagem, integra a equipe do Primeiras Horas

Nenhum comentário:

Postar um comentário